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infeliz em santa catarina

fui infeliz em santa catarina
em manhãs tétricas voltando pra casa
em tardes chuvosas escorregando nas ruas
de chinelo e camiseta branca com um pássaro na estampa

em santa catarina fui infeliz na maioria dos dias
cultivei bichos de pé e outros parasitas
os animais de casa tiveram pulgas
e é claro que morreram jovens

no vento fatal de santa catarina
os eletrônicos mofaram ao mesmo tempo em orquestra
não sobrou aparelho de som ou secador de cabelo
pra movimentar o quarto

fui infeliz em santa catarina
quando meu primeiro amor me chamou pra um encontro
que não passava de um culto religioso
em que apenas o espírito santo me beijaria

em santa catarina fui infeliz
em casa, no ponto de ônibus,
na ponte, na barraca de crepes,
na pastelaria
enquanto os catarinenses abriam os dentes
e repetiam “meu senhor, guria”

comprovei nas praias perigosas de santa catarina
que as águas do rio tendem a te afogar no mangue
e as águas do mar podem trazer o cadáver de um homem
em pleno domingo

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